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quinta-feira, 15 de setembro de 2005

Entrevista de Francisco Vaz da Silva ao Público

Devemos apostar nos transportes e na Educação de Aveiro

Mais um serviço público, do Público, desta vez por Patricia Coelho Moreira.
Francisco Vaz da Silva é o cabeça de lista da primeira candidatura do Bloco de Esquerda à Câmara de Aveiro. O designer já foi apoiante de Alberto Souto, mas diz-se "profundamente desiludido" com o segundo mandato do autarca.
O candidato bloquista garante que corre para presidente do município e não para vereador. Para o caso de chegar apenas à bancada da oposição, Vaz da Silva avisa desde já que não passará "cheques em branco" a ninguém.

PÚBLICO - Porquê agora a primeira candidatura do BE à Câmara de Aveiro?

Francisco Vaz da Silva - Ponderámos a hipótese nas eleições anteriores, mas achámos que não tínhamos condições. Somos uma organização ainda jovem, temos algumas dificuldades organizativas. Discutimos isso e ponderámos, até porque alguns elementos do Bloco, como eu, foram apoiantes do candidato Alberto Souto nas primeiras e nas segundas eleições a que ele concorreu.

Ficou desiludido com o segundo mandato de Alberto Souto para agora concorrer contra ele?

Fiquei profundamente desiludido, mas não queria pôr isto em termos de estar a concorrer contra ele. É evidente que vou concorrer contra um conjunto de ideias, iniciativas e práticas que ele teve, sobretudo ao longo do segundo mandato, com o qual não nos identificamos e estamos radicalmente contra. Esta decisão de envolver a autarquia na construção do Estádio Municipal de Aveiro foi desacertada e veio trazer problemas gravíssimos de endividamento. Grandes apostas como esta, que envolvem verbas de 12 milhões de contos, supõe-se que sejam para trazer algum benefício, alguma contrapartida.

Considera que o estádio foi apenas uma despesa?

Considero que foi uma despesa desnecessária. Aliás, não foi só cá, foi por todo o país. Alberto Souto veio com a desculpa de que toda a gente aprovou na Assembleia Municipal, e isso é verdade e lamentamos. Houve gente que manifestou reservas no início, mas essas vozes foram abafadas pelo entusiasmo e pelo frenesim que existiram.

Que modelo de gestão defende agora para o estádio e para o parque desportivo?

Tenho sérias dúvidas relativamente à concretização do parque desportivo, porque temos uma empresa completamente endividada e não sei que verbas estão envolvidas. Mas se Aveiro já se afundou com o investimento, não queremos que a situação seja ainda pior. Era importante fazer um debate com toda a gente, para se encontrar formas de rentabilizar este investimento e, sobretudo, fazer face aos custos de manutenção. Uma medida poderia ser a realização de espectáculos que atraíssem grandes multidões, como é feito em outros países. Não tenho nenhuma solução para resolver o problema, mas acho que devemos procurá-la em conjunto.

Concorda com a utilização dos terrenos do antigo Mário Duarte para construção?

Não, estou radicalmente contra. Acho que esses terrenos também deveriam ser objecto de avaliação e discussão, em termos da melhor solução, vendo se deveriam, por exemplo, ser anexados ao hospital, contribuindo para viabilizar alguma possibilidade do seu crescimento.

Que outras falhas encontra na gestão de Alberto Souto?

Nos últimos anos, tem crescido um "sem-número" de empresas municipais, cujo alcance e interesse não conseguimos perceber, porque vão prestar serviços que, supostamente, a câmara deveria prestar. Se virmos que parte substancial dos administradores dessas empresas são também autarcas e dirigentes na câmara, ficamos com a sensação que na câmara não conseguem ser eficientes e passam a sê-lo nas empresas municipais. Somos contra a criação de empresas municipais, que deveriam ser objecto de estudo e reavaliação, e deveriam prestar contas públicas, como deveria prestar a câmara aos seus contribuintes. Isto é fundamental e insere-se numa perspectiva de transparência na administração, que defendemos.

Qual é a política que o BE propõe em alternativa à da actual gestão camarária?

Passa por fazer uma aposta forte numa série de áreas que foram completamente votadas ao abandono. É fundamental apostar nas áreas social e educacional e pensar como é que a cidade se vai desenvolver. Devíamos promover a renovação do parque escolar, o que pode passar por novas edificações ou requalificações. Também houve um desinvestimento muito grande nos transportes colectivos. É fundamental uma interligação entre os diferentes municípios. Sabemos que em Ílhavo não há transportes públicos, mas talvez fosse possível criar, através de uma autoridade metropolitana de transportes, condições para que houvesse articulação

Acha que o desfecho das autárquicas é previsível, em Aveiro?

Não sei. Nenhum de nós anda a fazer campanha, neste momento, como os outros candidatos, que têm outra disponibilidade e capacidade. Temos um conjunto de ideias para defender e vamos fazer o possível por chegar às pessoas. Se as pessoas gostarem e acharem que merecemos a sua confiança, teremos um bom resultado.

Um bom resultado será ultrapassar a CDU?

Não, não entro em concorrência com a CDU nem com ninguém. A CDU não é nossa adversária, não constitui objectivo de ultrapassagem. Todas as forças políticas têm direito à sua existência e terão os votos que merecem. Nós esforçar-nos-emos por ter o máximo de votos e, se possível, ganhar a câmara.

Acredita que vai ser eleito vereador?

Acredito que tenho que lutar por um conjunto de ideias, que tenho que sensibilizar as pessoas. O meu objectivo não é ser vereador, o meu objectivo é ser presidente da câmara.

Qual será o papel do BE, se chegar à oposição em Aveiro?

Se estivermos na oposição, não passaremos cheques em branco a ninguém. Vamos defender aquilo que nos propomos fazer, designadamente em matéria de transparência, proximidade e políticas a favor dos cidadãos. Quanto a viabilizar isto ou aquilo, vai depender de uma série de circunstâncias, analisaremos cada situação.

Qual o modelo de desenvolvimento do BE para Aveiro? Passa por uma política de intermunicipalidade?

É um modelo que passa por investimento claro no bem-estar das pessoas, na qualidade de vida, na melhoria da educação, da mobilidade, dos transportes públicos, numa política de proximidade com as pessoas, numa ligação forte à universidade, numa política de turismo que possa ser importante no apoio ao comércio tradicional. Se os autarcas estiverem preocupados com a população, conseguem entender-se, ou assistimos a um conjunto de comunicados e guerras verbais que não levam a nada.

Mas Aveiro é apontado como um município exemplar em termos de qualidade de vida...

Ou a exigência é muito pouca ou as pessoas nunca viram o que é viver num sítio com qualidade de vida. Basta sair de Portugal e ver, às vezes em cidades bem maiores do que as nossas, o que é poder circular à vontade, poder usar a bicicleta. Em Aveiro, não se pode andar de bicicleta e tivemos uma coisa extraordinária, que foi o lançamento da BUGA (Bicicleta de Utilização Gratuita de Aveiro). Mas não foram criadas vias cicláveis.

Que solução preconiza para resolver o problema de endividamento da autarquia?

Antes de mais, era fundamental todos nós sabermos qual é o nível de endividamento, porque ninguém consegue dizer qual é o valor. Alberto Souto diz que a capacidade de endividamento da câmara não está posta em causa, mas não sabemos o que isso quer dizer, e nenhum dos partidos avança com valores iguais. Alberto Souto disse que ia reduzir a dívida em oito milhões de euros, mas não é verdade. O que ele fez foi adiar a dívida, com custos inerentes. Sabendo qual o nível de endividamento, talvez se possa pensar que tipo de decisões é que um executivo tem que tomar para fazer face a essas dívidas.

2 comentários:

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  2. Francisco Vaz da Silva é uma aposta. Aveiro ganharia bastante com ele no Município.

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